Em todos os momentos de crise ou bolhas financeiras já ocorridas em toda a história da humanidade, desde a bolha das tulipas, no século XVII, sempre houve um impacto direto no varejo, pelo fato do consumo sempre estar atrelado ao segmento varejista.

Os fatores fundamentais que determinam a propensão ao consumo, são a confiança do consumidor, crédito, emprego e renda, onde os mesmos se tornam índices chaves para se mensurar o desempenho e crescimento do varejo.

Portanto, é importante analisar o contexto atual em que o mundo está vivendo, bem como fazer comparações com eventos passados, pois, dessa forma, é possível traçar um plano de reestruturação e inovação, visando manter a competitividade no mercado. 

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O que foi a Crise de 2008? 

A bolha imobiliária dos Estados Unidos em 2008 abalou todo o mundo, em diversos setores, e teve seu início devido ao fato do governo ter facilitado acesso ao crédito com juros baixos. Com isso, houve um “efeito manada” dos investidores, para se tomar empréstimos para comprar imóveis e revende-los.

As hipotecas mais comuns eram as “subprimes”, onde eram feito empréstimos para pessoas com “crédito ruim” e não havia garantias concretas de pagamento, apenas especulações de que, no futuro, fossem vender os imóveis e com os lucros haveria a quitação dos mesmos. 

Portanto, muitos agentes avaliadores de empréstimos, que prestavam serviços de maneira independente para bancos e instituições, começaram a aprovar empréstimos de maneira acelerada, pois suas comissões dependiam da emissão de hipotecas.

Consequentemente, os bancos lucraram muito com esse tipo de operação e as agências regulamentadoras não se atentaram ao crescimento da bolha. Sendo assim, devido ao crédito fácil e barato, resultou em um aumento exponencial dos preços dos imóveis.

Houve muita oferta de imóveis e pouca demanda, as pessoas que tomaram os empréstimos não conseguiam pagá-los, pois não estavam vendendo os imóveis. Como resultado disso, houve a quebra de vários bancos nos Estados Unidos.

Com pouco tempo, este fato causou um forte impacto nas bolsas de valores ao redor do mundo, forçando o governo americano a intervir para socorrer algumas instituições bancárias e a economia. Diante desse cenário, houve demissões em massa e uma crise generalizada em todo o planeta.

No Brasil, a crise também afetou vários setores, interrompeu o crescimento do Ibovespa e espantou os investidores internacionais. Contudo, o governo brasileiro na época agiu de forma rápida, tomando algumas medidas pontuais para redução dos impactos. 

Um exemplo foi a estratégia de estímulo ao consumo, reaquecendo a economia e, como consequência disso, a recuperação de vários setores do mercado.

O que está sendo a crise econômica causada pelo novo COVID-19?

A crise econômica atual foi causada de forma repentina no mundo, através do novo COVID-19, onde se há indícios que o vírus se originou no distrito Guangdong, na China. O vírus se espalhou rapidamente para todo o mundo, o que causou pânico e situações alarmantes em diversos países. 

Como até o presente momento não há nenhum sinal de vacina ou cura para o mesmo, diversos países tomaram medidas de contenção do alastramento da doença. Com isso, se tornou comum zonas de quarentena ao redor do mundo.

Contudo, diante do alastramento da doença e das medidas adotadas pelos países, nas bolsas de valores globais ocorreram quedas bruscas, sentidas em diversos setores econômicos. Assim, foram impactados o emprego, cadeias produtivas e também o consumo. Roberto Troster, doutor em economia pela USP fez a seguinte afirmação:

Temos claramente agora um evento que podemos classificar como cisne negro.

Cisne negro é um termo na economia que define um evento de raro acontecimento, acima de todas as expectativas normais, históricas, científicas, financeiras ou tecnológicas.

A pandemia causada pelo COVID-19, está gerando uma recessão sem precedentes em todas as economias globais, sendo batizada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) como “O grande confinamento”.

No Brasil, para se conter os impactos, o ministério da economia vem tomando uma série de medidas para tentar reduzir os danos causados. Alguns exemplos são: auxílio emergencial para os cidadãos, crédito para empresas para manutenção de empregos, redução de jornadas de trabalho e salários, liberação de recursos para os estados e municípios, entre outros.

Em contrapartida, o setor varejista vem tomando uma série de medidas para se adaptar ao novo cenário, devido a mudança de comportamento de consumo da população, empresas de diversos setores têm investido fortemente na presença de seus negócios no digital, tornando o e-commerce o ponto chave do seu negócio, momentos antes da crise tal posicionamento era para diferenciação, hoje para sobrevivência. 

Comparação entre a Crise de 2008 e a Crise econômica atual (2020)

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Fonte: FMI
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Fonte: FMI
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Fonte: FMI
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Como mostrado na imagem 1 e 2, no final de 2008, o PIB cresceu 5,10%, já a projeção para o final deste ano de 2020, é de que o PIB siga o caminho inverso e caia -5,30%, de acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional). 

A situação fica ainda mais complicada em termos de recuperação da economia para países emergentes, como o Brasil. A razão disso é que esses países possuem moedas fracas, ou seja, ficam dependentes da recuperação dos países de economia forte, para a sua reestruturação.

Na imagem 3 é demonstrado a situação em que o Brasil estava antes de ocorrerem tais crises, nota-se nitidamente que em 2008 o país estava em uma situação de crescimento, com o real mais valorizado frente ao dólar, em agosto de 2008, antes da crise, a cotação do dólar era de R$ 1,57, já no final de 2008, como demonstra a imagem, a cotação sobe para R$ 2,34. 

Já em 2019, ano que se antecipa a crise do COVID-19, a situação é diferente, o Brasil se encontra em uma situação de pouco crescimento, com o real desvalorizado frente ao dólar, e fecha o ano de 2019 com a cotação de R$ 4,01, e chega ao recorde de sua cotação em Maio deste ano, sendo negociado a R$ 5,90. 

É importante se destacar, como mostrado na imagem 3, a taxa de desemprego antes da crise de 2008, é de 9,40%, mas fecha o ano de 2008 com uma média de 7,9%. Já em 2019, ano que se antecipa a crise, houve um fechamento em 11,9% da taxa de desemprego.

Para Roberto Troster, em 2008, houve falta de liquidez no mercado.

Faltou dinheiro no mercado financeiro, e isso atingiu a economia em efeito dominó.

Agora para Marcelo Botelho Morais, doutor em Economia pela USP, em 2020, há falta de dinheiro real no mercado.

As empresas agora quebram por falta de caixa. Quanto menos caixa, mais rapidamente é a quebra. E isso provoca desemprego também de forma mais rápida. Temos um choque simultâneo de oferta e demanda.

Impacto no Varejo

Todo o cenário de ambas as crises descritas acima, tiveram impactos significativos no varejo, no ano da crise e resquícios no ano seguinte, para tal segue abaixo os impactos na economia e varejo, segundo o SBVC (Sociedade Brasileiro de Varejo e Consumo).

 Consumo das famílias

O consumo das famílias é o grande motor da economia, afirma o IBGE, e essa área tem um peso de 65% na composição do PIB. Vale destacar, que para efeito de comparação, é importante se basear nos momentos que se antecipam a crise, pois estamos ainda no cenário de crise causado pelo COVID-19, portanto, não há forma de se ter uma previsão e de basear em dados posteriores a tal. 

Diante disso, em 2008, momento antes da crise,  houve um aumento no consumo das famílias de 6,5%, e em 2019, ano que se antecipa a crise, de apenas 1,8%.

Vendas no comércio Varejista Ampliado

Em 2008, houve uma alta de 9,90% no varejo ampliado, onde se abrange todos os setores do varejo, já em 2019, acumulou-se uma alta de 3,90%.

De acordo com o Boletim divulgado pela CIELO no dia 26/05/2020, os impactos do COVID-19 no Brasil desde a data de 1º de março, são os seguintes:

O varejo total no Brasil apresentou queda de -29,7% no período acumulado. Já na abertura por grupos de setores, o setor de Bens Não Duráveis apresenta a menor queda, atenuando o impacto no período de -2%, já o setor de serviços apresenta a maior queda, atenuando o impacto de -61,4%, como demonstra a tabela abaixo: 

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Portanto, diante dos cenários apresentados, é possível perceber que em 2008 houve um maior consumo das famílias, e maiores vendas no varejo ampliado em comparação ao ano de 2019 que se antecipou a crise do coronavírus. 

A situação em 2008 foi mais favorável ao país pelo fato de medidas governamentais que incentivaram o consumo, consequentemente, as vendas aumentaram no varejo. Outro ponto importante, é que em 2008 o país estava em um crescimento acelerado, e o governo conseguiu se antecipar e tomar medidas para a economia sentir menos impacto.

Já na crise atual o cenário é diferente, pois o alastramento do vírus foi de forma rápida e alarmante em todo o mundo. Contudo, as medidas governamentais não foram suficientes para conter a economia, e o impacto foi repentino e de maneira agressiva.

Conclusão 

Diante do cenário apresentado acima, é possível afirmar que a crise do COVID-19, que ainda não chegou ao fim, já é mais danosa para o segmento varejista em relação à crise de 2008. 

A diferença primordial entre ambas as crises está nas medidas governamentais. Em 2008, o governo tomou uma série de medidas preventivas, como por exemplo, a redução de impostos para estimular o consumo, congelou preços do petróleo, subsidiou as tarifas de energia elétrica. Tudo isso para para manter a economia aquecida.

O cenário do varejo brasileiro ainda é de muita cautela nos investimentos. Não só o Brasil, mas o mundo, está vivenciando tempos de incertezas. Agir de forma planejada é o principal diferencial, mesmo o mercado exigindo rapidez e transformação digital acelerada.

De acordo com o estudo “O Papel do Varejo na Economia Brasileira” produzido pela SBVC, o segmento varejista emprega um em cada cinco trabalhadores brasileiros e impacta dois terços do PIB do país. Dessa forma, o cenário geral do varejo hoje não é positivo, com reduções drásticas de vendas.

Há economistas que estão otimistas para o segundo semestre, acreditando na reabertura da economia de maneira gradual. Porém, no atual momento, é preciso que os varejistas se adaptem a nova maneira de consumo e se prepararem para a sua reestruturação, pois o comportamento do consumidor mudou significativamente e a tendência é que ele nunca volte ao “normal”. 

Portanto, qualquer projeção para o varejo no presente momento se torna imprevisível. Muitos fatores estão envolvidos nesse sentido, desde a mudança no comportamento do consumidor, até medidas tomada pelos governantes do país.

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