De acordo com um estudo realizado pela KPMG, que analisou a tendência em fusões e aquisições (M&A) realizadas pelo setor de consumo e varejo no Brasil durante o ano de 2020, foram realizadas 104 transações de M&A no varejo, 30% maior em relação ao ano anterior. 

Porém, dos valores totais em transação, houve uma retração de 40% em relação ao ano de 2019, movimentando US$ 3 bilhões. Ao longo do ano, houve algumas oscilações por conta da pandemia, que foi o principal fator para essa redução. 

Para o ano de 2021, é esperado um volume estável de transações no mercado. O principal fator que influencia as transações nesse sentido são as altas das taxas de juros e a rápida recuperação registrada pelo país recentemente.

O objetivo deste conteúdo é introduzir o tema de M&A, através de exemplos, bem como apontar seus benefícios, desafios, cases e tendências para o futuro.

O que são operações de M&A?

M&A é a sigla em inglês para Mergers and Acquisitions, traduzindo para o português: fusões e aquisições. O termo se refere à consolidação de um negócio por meio de diferentes transações financeiras, que permitem que empresas sejam compradas, vendidas ou concentradas.

Nos dias de hoje, onde os consumidores são altamente informados e mudam os hábitos de compra frequentemente, as empresas buscam estratégias para gerar vantagem competitiva e expandirem seus negócios. Nesse sentido, as fusões e aquisições desempenham um importante papel para organizações que querem alcançar esses objetivos.

De modo geral, o objetivo dessas operações de fusões e aquisições é aumentar a produtividade e a eficiência das empresas envolvidas na negociação, maximizando lucros e trazendo muitas vantagens estratégicas.

Porém, é importante considerar que existe uma diferença entre fusões e aquisições. Abaixo está apresentado de forma mais completa qual a diferença entre as operações e os tipos de cada uma delas.

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Fusões

Fusões são procedimentos em que ocorre uma reorganização empresarial em virtude da combinação das operações de diferentes empresas. Elas dão lugar a uma nova companhia, geralmente com novo nome, e o resultado é o desaparecimento das empresas que se fundiram.

Entre os tipos de fusão, 5 se destacam. São eles: 

Fusão horizontal

As fusões horizontais consistem na junção de empresas que atuam no mesmo segmento e que oferecem soluções semelhantes. O objetivo é criar uma companhia com uma maior participação no mercado e expandir sua área de atuação.

Fusão Vertical

As operações verticais ocorrem na junção de duas ou mais empresas cujos negócios se complementam. Nesse caso, as organizações podem não competir entre si, mas operam em diferentes níveis dentro da cadeia de suprimentos de uma indústria.

Dentre os objetivos da fusão vertical estão maior controle sobre as atividades, proteção do investimento principal, ganho na facilidade da distribuição e de escala dos produtos e assegurar matérias-primas. 

Conglomerado

As fusões consideradas conglomerado são  aquelas entre empresas com atividades sem nenhuma relação, ou seja, aquelas que disponibilizam soluções totalmente diferentes. O objetivo desse tipo de operação é diversificar o risco e aproveitar oportunidades de investimento.

Fusão de extensão de mercado

A fusão visando a extensão de mercado consiste na junção entre companhias que produzem as mesmas soluções, mas em mercados distintos. Seu objetivo é assegurar que as empresas tenham acesso a um mercado mais amplo e conquistem uma base maior de clientes.

Fusão de extensão de produto

A fusão visando a extensão de produto consiste em uma operação entre organizações que produzem soluções que possuem alguma relação e cujas atividades se desenvolvem no mesmo mercado. O resultado desse tipo de fusão permite às empresas agrupar seus produtos e aumentar sua base de clientes.

Aquisições

A aquisição, como o nome já diz, trata da compra de uma empresa por outra. Nesse caso, necessariamente uma das empresas permanecerá. Porém, isso não significa que a outra tenha que sumir. Dependendo da negociação, a companhia adquirida pode continuar no mercado, mas sob nova direção.

O processo de aquisição pode ocorrer de duas formas. A primeira delas é por compra de ações, e acontece quando a adquirente compra parte ou a integridade das ações de uma outra empresa. A outra é através da compra de ativos. Nessa segunda, em vez de ações, a adquirente compra os ativos líquidos de outra companhia, recebendo o capital por meio de dividendos ou liquidações.

Existem apenas dois tipos de aquisições. São elas:

Aquisição amigável

A aquisição amigável acontece quando os gestores da empresa que está para ser comprada veem benefícios na operação e colaboram com o processo de Due Diligence da adquirente.

Aquisição hostil

A aquisição hostil trata-se da negociação que ocorre contra a vontade do conselho de administração da empresa que será adquirida, normalmente com a compra da maioria do seu capital.

Desafios da Estratégia de M&A

As operações de M&A são extremamente complexas e exigem profissionalismo desde as fases de planejamento até as fases de execução da estratégia. Entre uma fase e outra, é natural que haja uma série de desafios e gargalos que devem ser superados.

Abaixo estão exemplos de desafios que devem ser superados durante todo o processo de fusão e aquisição. 

Definição de Alvos e Avaliação das Empresas

Antes de toda operação, seja ela de fusão ou aquisição, deve ser feito um profundo estudo do mercado, para entender se há a oportunidade de crescimento através dessas operações e quais são as condições do micro e macroambiente que podem influenciar o sucesso da estratégia.

Uma vez que esses pontos foram estudados e, a partir deles, foi identificado que há um potencial de crescimento interessante no mercado, o próximo passo é identificar qual a empresa ideal para esse processo.  

Nessa fase, devem ser levantadas empresas-alvo, as quais devem ser analisadas de maneira profunda com o objetivo de avaliar se elas estão alinhadas com a estratégia da companhia e se de fato há sinergias a serem exploradas com a operação.

Integração de Culturas

Quando duas ou mais empresas combinam suas operações, seja através de uma fusão ou aquisição, a diferença de culturas organizacionais entre elas pode apresentar desafios importantes. Caso esses desafios não sejam superados, dificilmente a operação obterá sucesso.

Esse problema ocorre pois os profissionais já estão alinhados e acostumados a uma empresa e sua cultura. O processo de transição e adaptação a uma nova realidade pode ser difícil, principalmente quando se trata de executivos, pois, em vários casos, eles acabam perdendo um pouco de autonomia e se veem em desafios maiores e mais desafiadores.

Diante disso, fazer uma integração entre as culturas, chegando em um modelo ideal que prevaleça, de acordo com as necessidades da operação, é um fator determinante para atingir os objetivos da estratégia. 

Integração de colaboradores

Alguns colaboradores enxergam as operações de fusões e aquisições como um trampolim para impulsionar suas carreiras. Porém, por outro lado, há aquelas pessoas que se veem em um ambiente de vulnerabilidade e, por esse motivo, acabam assumindo um comportamento negativo. 

É comum ver o turnover (rotatividade de colaboradores) aumentando após as operações de M&A que negligenciam a importância da integração entre os colaboradores, e isso pode ser extremamente custoso para a empresa, além de comprometer o sucesso da operação.

M&A’s no Varejo Brasileiro

O varejo brasileiro viveu três grandes ondas de fusões e aquisições. A primeira delas foi no período entre 1994 e 2002, onde, influenciado pelo plano real, houve a abertura de mercado e controle da inflação do país.

A segunda onda se deu após este período e perdurou até o ano de 2013, onde os índices de consumo foram potencializados por conta do boom econômico. Porém, a partir do ano de 2014, o país se viu em meio a uma recessão econômica, e isso freou a onda de fusões e aquisições. 

A terceira onda está acontecendo nos dias de hoje, sendo a transformação dos negócios de varejo o principal motor para esta fase, puxados pela ascensão do e-commerce, mudança dos hábitos de consumo e repaginação das lojas físicas. 

Ainda pouco concentrado, o varejo brasileiro está vivendo o pontapé inicial de uma nova e intensa onda de aquisições estratégicas, impulsionada pelo amplo pacote de transformações, assim como falado acima.

Essa nova onda está contribuindo para o surgimento de novos modelos de negócios. Dois exemplos que mostram isso é o surgimento de plataformas e ecossistemas, que usam a base de clientes e a recorrência para crescer de forma acelerada, integrando varejo, marketplace, serviços financeiros, conteúdo, mídia, entretenimento e outros serviços. 

Direcionando mais para essa última onda, abaixo estão listadas duas dessas operações de fusões e aquisições que aconteceram nos últimos tempos e repaginaram o cenário do varejo nacional. 

Carrefour e Grupo Big

No dia 24 de março deste ano, o Carrefour, maior varejista do Brasil, fez a aquisição do Grupo BIG (ex Walmart), por R$ 7,5 bilhões, criando uma companhia de R$ 100 bilhões em faturamento, aumentando ainda mais sua soberania no mercado nacional.

Essa operação é uma estratégia de horizontalização do Carrefour, acelerando a presença da empresa em regiões como Nordeste e Sul, em que, antes da aquisição, a operação era limitada. Além disso, a transação permite que o Carrefour expanda seus formatos tradicionais (principalmente atacado e hipermercados).

Caso aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), estima-se sinergias de R$ 1,7 bilhão, em até três anos após a conclusão da operação. Além da penetração em outros estados, outro ponto que contribui para esses números é o potencial de explorar o braço financeiro do Carrefour e atingir a base de clientes do Grupo BIG.

Magazine Luiza e Netshoes

A Magazine Luiza é uma máquina de fazer aquisições, realizando mais de 20 aquisições estratégicas desde 2017, envolvendo negócios de varejo, e-commerce, serviços financeiros, logística, infraestrutura e sistemas. Inclusive, a empresa foi, em diversas situações, contestada por suas aquisições, pois alguns analistas não conseguiam enxergar sinergias claras nas operações.

Porém, o objetivo deste tópico não é falar de todas as operações, e sim focar em uma das principais: a aquisição da Netshoes. Depois de uma longa disputa com a Centauro, a Magazine Luiza ganhou o deal e concluiu o processo de aquisição da Netshoes, por R$ 440 milhões.

A lógica por trás da aquisição é que, segundo executivos do Magalu, entrar na categoria de artigos esportivos por meio dessa operação era mais barato do que começar uma operação do zero. A fala de Frederico Trajano, CEO do Magalu, explica a estratégia por trás da aquisição:

“O acordo com a Netshoes está absolutamente em linha com a atual estratégia da companhia: crescer em ritmo chinês, de forma consistente, consolidando-se como protagonista entre as empresas de tecnologia voltadas ao varejo. Estamos saltando etapas importantes na construção de uma plataforma digital robusta e completa, e entrando com força em alguns dos maiores mercados da Internet brasileira: os de vestuário, calçados, artigos esportivos e moda.” 

Tendências de M&A no Varejo

O varejo brasileiro dificilmente será consolidado por poucos operadores dominantes, mas é provável que haja maior intensidade de competição e convivência entre grandes ecossistemas diversificados, grandes grupos com atuação nacional e operadores mais regionalizados.

No intuito de reinventar o modelo de negócios e em resposta às mudanças constantes do comportamento do consumidor, principalmente influenciadas pela pandemia do coronavírus, as empresas devem prosseguir rumo à transformação digital. Com isso, a tendência é que essa onda de fusões e aquisições se mantenha em alta nos próximos anos. 

Conclusão

Crescer de forma inorgânica por meio fusões e aquisições pode trazer inúmeros benefícios, alguns exemplos podem ser: diversificação de mercado, aumento de capilaridade, incremento de capabilities, redução de custo e crescimento de receita. 

Porém, como tudo no mundo dos negócios, existem os riscos por trás dessa estratégia. Se o processo for realizado de maneira amadora e pouco estruturada, existem grandes chances de fracasso, culminando em sérios riscos para a companhia. 

Diante disso, para atingir os objetivos e mitigar os riscos, o processo de fusões e aquisições deve ser feito de maneira planejada, desde o interesse em adquirir alguma empresa até as fases de implementação da estratégia, pois só assim as sinergias poderão ser exploradas e traduzidas em resultados positivos para as companhias.

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